Odiei na primeira mordida. Cobri minha fatia de pão generosamente com aquilo que jurei fosse uma espécie de Nutella mais escura, e depois da primeira (e única) mordida minha boca instantaneamente se encheu de um sabor extremamente salgado, amargo e nada agradável. Passei o resto do dia sem comer mais nada e desde então só ao ver a embalagem do Marmite já sinto náuseas.
Marmite, assim como o chá com leite, é uma espécie de instituição da cultura (e culinária) britânica. Consiste em extrato de levedura de cerveja (que dá aquele sabor “amargo-de-cerveja-choca”) e níveis cavalares de sal, a cor é marrom escura e a consistência é meio que de geléia. Se passa no pão, crackers, bagel, ou qualquer coisa do gênero e aparentemente todo o britânico, pelo menos uma vez na vida, já comeu Marmite. Mas ao contrário da Nutella, que é unanimidade na Itália (e fora dela), Marmite divide torcidas. Tem quem adora e tem quem odeia, exatamente nesses termos. Ninguém mais ou menos gosta (ou não) de Marmite (da mesma forma que não existe mulher ‘meio grávida’), e isso nada tem a ver com crescer ou não comendo Marmite (no caso de alguém pensar que isso pode ser coisa de estrangeiro que não aprecia o sabor peculiar de produtos locais).
A divisão de opinião é tanta que há mais de 20 anos não só o slogan mas todas as campanhas do Marmite (marca comprada pela Unilever e publicitariamente escoltada pela DDB UK) são embasados no conceito “Marmite Love it or Hate it”, representando, sem nenhum pudor, o sentimento das pessoas com relação ao bendito. Estudo de caso no meio publicitário, parece que o fato de incluir a imagem negativa do produto na estratégia de marketing só veio a ajudar no crescimento do conhecimento da marca e até a gerar uma espécie de identificação de quem não suporta Marmite (sim, eu).
Hoje, Marmite já virou império e além do ‘food spread’ tem salgadinho, barra de cereal e uma vasta gama de acessórios com a marca do produto estampada. Inclusive, ano passado, a Unilever investiu na temporária Marmite Pop Up Shop, no centro de Londres, para vender todas as quinquilharias possíveis relacionadas à marca e propiciar, para aqueles que amam Marmite, uma única ‘Marmite experience’ em uma cafeteria com decoração dos anos 50.
E agora em tempo de eleições (aqui, dia 6 de maio o povo vai para as urnas), dá pra votar no Love Party ou Hate Party, todos com programas governamentais relacionados ao sentimento que Marmite causa nos possíveis eleitores. Os vídeos são ótimos, e vale a pena dar uma olhada, ao menos em um deles.
Com genial estratégia de marketing ou não, Marmite é de se respeitar, mesmo odiando.
*Expressão britânica utilizada cotidianamente e que faz jus ao sentimento Marmite.




1 comentário
Feed de comentários deste artigo
abril 28, 2010 às 2:16 pm
Ari
Que ótimo!!! Eu sou da mesma opinião que tu em gênero, número e grau quanto a essa gororoba marrom. Mas realmente não sabia do Marmite-effect… Sensacional!