Em tempos de eleições uma das tantas discussões que acabam vindo a tona é a questão sobre a imparcialidade da mídia no Brasil. Quando vejo comentários sobre notícias tendenciosas e o quanto a mídia deveria ser imparcial, eu penso sobre o que as pessoas achariam do fato que em muitos países europeus o jornal embaixo do braço pode representar a inclinação política do leitor.

Na Itália existem jornais claramente de direita, esquerda e “centro”, sendo alguns deles inclusive relacionados a partidos [não dá pra esquecer que o Berlusconi, 4 vezes primeiro ministro, tem seu partido e é um media tycoon então melhor definir as coisas antes de causar qualquer confusão]. Já no Reino Unido durante a campanha os jornais abrem seu apoio a um determinado partido ou candidato. Normalmente, o apoio é anunciado através de um editorial que explica ao leitor a decisão tomada. Ao longo dos anos alguns jornais e revistas oscilaram de partido e nas  eleições nacionais de 2010 o Guardian abriu um inquérito aos leitores perguntando quem eles achariam que o jornal deveria apoiar. Tem até uma tabela pra demonstrar quais partidos os principais jornais apoiaram desde 1945. Mas mesmo oscilando de partido normalmente está claro ao leitor qual é a inclinação política daquilo que ele está lendo.

Tabela de apoio a partidos dos principais jornais britânicos

Tabela de apoio dos principais jornais britânicos a partidos

Enquanto isso no Brasil durante essa eleição surgiu uma interessante iniciativa, o Manchetômetro. O projeto analisa as manchetes dos principais jornais do país para demonstrar a inclinação de cada veículo com relação aos principais candidatos. A metodologia ainda precisa ser aprimorada mas a análise é mais que bem vinda em momentos como esse.

Eu pessoalmente não acredito em imparcialidade midiática. Uma história tem sempre mais de um lado, e quando ela é relatada por um outro ser humano não tem como ele não colocar um pouco da sua opinião ali. Além disso, esse relato vai passar por mãos [e cabeças] de outras pessoas, como editores e lobistas em geral [desde anunciantes, investidores e lobistas políticos] que vão influenciar cada um com o seu próprio ponto de vista. No final, aquilo que lemos é um apanhado das impressões de pessoas com interesse e compreensão de mundo diferentes. E isso não tem como ser imparcial.

Uma mídia posicionada diminui essa confusão causada pela tal imparcialidade – como se a mídia fosse neutra e detentora da verdade absoluta. Ao menos é mais honesto com o leitor, já que o posicionamento esclarece de qual ponto de vista a história está sendo relatada e analisada. Isso, claro, não quer dizer que jornais e revistas possam sair por aí fazendo campanha de forma indevida e virar panfletos e santinhos de candidatos. Também não isenta os veículos de checarem os dados e fontes das notícias que reportam [não vamos confundir posicionamento com mediocridade]. E é importante entender que existem colunas na qual contribuidores expõem suas opiniões e não relatam dados. Enfim, acredito que uma mídia posicionada no mínimo ajuda o [e]leitor a não comprar gato por lebre, já que assim, não é possível ficar fazendo de conta que se é imparcial, enquanto de fato se está sambando de um lado [ou outro].

Imagem

Sou filha de um dos tantos japoneses que imigraram para o Brasil ali pela década de 70. Meu pai porém decidiu encarar essa sozinho e a família dele [que consequentemente é minha] ficou na pequena ilha do outro lado do mundo. Por questões geográficas, econômicas e pessoais eu fui conhecer essa outra parte da família apenas quando eu tinha 8, 9 anos de idade. Eu era nova demais pra entender o tanto que eu entendo hoje das diferenças culturais, dos códigos sociais, dos causos de família como sogra e nora. Mas entre as tantas memórias meio embaçadas daquela viagem tem uma que me marcou especialmente.

Passei um dia na escola dos meus primos. Era uma escola pública que atendia tanto primário como secundário e os alunos eram das idades mais variadas. Não só estranhei o uniforme [nada de moletom da Disney e mochilas da Company] como também a forma com que as pessoas iam para a escola [nada de ônibus ou carros com pais ouriçados dirigindo]. Aquele era um pequeno vilarejo e o aluno que morava mais longe pegava o segundo e assim eles seguiam fazendo o trajeto em grupo, passando na casa dos outros até chegar ao ponto final, a escola.

O dia foi intenso, principalmente para minha prima que coitada tinha que ficar explicando essa situação exótica, uma menina que parecia japonesa que morava no Brasil [durante uma das aulas me fizeram apontar num mapa onde o Brasil estava localizado]. Além disso, todos tinham muitas perguntas que infelizmente eu não pude responder por não saber falar japonês e a pobre teve que fazer as vezes de intérprete.

Mas não foram as aulas de caligrafia, de ginástica na quadra ao ar livre, de flauta e serviços domésticos [com meninos presentes] que mais me chamaram atenção. O que me causou imensa surpresa foi o fato de que os alunos eram os responsáveis pelos serviços da escola. Grupos formados por crianças e adolescentes de diferentes séries eram responsáveis tanto pela alimentação quanto pela limpeza do espaço. Sim, os alunos tinham que limpar os banheiros, ginásios, suas próprias salas de aula e cozinhar seu almoço. Eu pasmei, fiquei pensando como isso poderia funcionar no Brasil onde a maioria dos alunos devem acreditar até hoje que as coisas se limpam sozinhas ou com uma empregada.

Com o passar dos anos fui entender que isso no final é uma prática de cidadania. A responsabilidade é coletiva e é preciso que todo mundo faça a sua parte para que a máquina siga funcionando, e naquele caso era para se ter almoço e uma escola limpa. Isso acaba também fazendo com que as pessoas entendam o valor de cada trabalho, por menos glamoroso que ele seja. Por isso que quando vi os torcedores japoneses juntando o lixo na Arena Pernambuco não fiquei tão surpresa assim – isso já tinha me surpreendido há mais de 20 anos atrás. 

Inglaterra Campeã_1

Eis que mais uma Copa começa e tão contraditória quanto a discussão do vai ou não vai ter Copa é a fé da torcida inglesa. Todo o mundo é ciente, incluindo os ingleses, de que torcer para os Three Lions [ou seleção inglesa] é uma árdua tarefa. Mesmo assim a cada campeonato que a seleção participa a comoção rola solta e a esperança de que um milagre divino acontecerá e o feito de 1966 se repetirá se espalha pelo país.

Feito de 1966

Feito de 1966

Bandeiras surgem em janelas de casas e pubs.  Lojas de 1,99 e supermercados se revestem de qualquer coisa que estampam as cores branca e vermelha. Chovem convites para churrascos e eventos para ver os jogos. A venda de camisetas oficiais aumenta e a BBC nos inunda com programas sobre as glórias do passado [??] e as chances no futuro. Cálculos e probabilidades são tantos que se a pessoa der um Google com “will England win the World Cup” os resultados que aparecem contabilizam em 57,9000 – juro, só fazer o teste. A loucura é tanta que até o mais inteligente dos seres humanos, como Stephen Hawking acaba se rendendo e calcula a chance dos Three Lions no campeonato.

Entendi tamanha adoração e sofrimento quando em 2010 fizemos uma festa na nossa casa exatamente no dia do primeiro jogo da Inglaterra na Copa. Conseguimos um projetor e todos os ingleses presentes se apinharam na sala pra ver o goleiro tomar um frango absurdo e o Three Lions empatar com um apático Estados Unidos. Mesmo assim, ao final da partida apesar das piadas autodepreciativas eles estavam firmes e fortes de que haviam possibilidades de ganhar a Copa… Ainda tentei acompanhar alguns outros jogos a convite de amigos ingleses, mas não consegui ver até o final. Acho que não sou capaz de tal adoração – eles dizem que a paixão deles por futebol é maior que a nossa, pois torcer pra seleção campeã é fácil, quero ver sofrer assim e continuar fiel.

O mais estranho porém é que essa é uma fé consciente [se isso for possível]. Mesmo criando toda essa atmosfera ingleses são conscientes de que a realidade é outra e eles provavelmente serão eliminados entre as oitavas e quartas de final nos pênaltis, de forma humilhante. Mas a gente está falando de futebol, e todo mundo que gosta de futebol sabe que não existe lógica nisso tudo e que a esperança é a última que morre. Que venha a Copa e que vença o melhor [e se for o Three Lions nesse caso já tem até previsão de como a mídia britânica reagiria – vide a foto lá em cima].

 

 

Desde pequena tenho um fascínio por miniaturas. Sempre achei incrível pessoas com a capacidade de recriar um mundo meticulosamente pequeno, principalmente quando ele é cheio de detalhes como esse feito pela fotógrafa Lori Nix. Para a exposição “The City”, onde ela retrata espaços abandonados e deteriorados pela natureza e tempo em uma representação do fim dos tempos, Lori desenvolveu cada locação que foi fotografada. Com a ajuda de um assistente ela construiu todas as maquetes na sala de sua casa e cada uma levou entre 2 a 15 meses para ser feita. O resultado é incrível e vale a pena dar uma conferida.

Esses dias no trabalho falávamos sobre a dificuldade de organizar nossas vidas digitais. Muitas bookmarks, muitos emails, muitas fotos, muita informação. Como que a gente faz? Quem consegue voltar e checar aquilo que foi salvo, aquilo em que se passou o olho e se deixou para ver melhor depois? Organizar todos os emails, listas de contatos, atualizar página de Facebook, manter o ritmo com o Twitter e as outras tantas redes sociais? Não seria bom ter alguém para fazer isso pela gente, uma espécie de  digital coach, alguém que organize, se encarregue de todos os seus arquivos digitais?

 

Pensando nisso me deparei com esse vídeo do fotógrafo Mike Matas que nada mais é do que um simples álbum de fotos da viagem que ele fez para o Japão com a sua namorada. Achei uma ótima forma de não apenas reviver, mas de dividir aqueles momentos fotografados que muitas vezes se perdem nos arquivos digitais de nossas vidas. Praticamente como abrir aquele antigo álbum de fotografias e contar para os amigos como foi a viagem. Se ele fosse digital coach, eu contratava.


Foi mais ou menos com essa sensação que eu sai da feira de arte gráfica denominada Pick Me Up. Organizada por artistas, coletivos e produtores, essa foi a primeira feira de arte gráfica de Londres (ao menos é o que eles dizem) que além de expor e vender o trabalho dos artistas (todos a preços relativamente acessíveis, partindo do ponto de vista de que as peças são ‘obras’, mas impressas em série) também serviu de local para workshops.

Alguns dos trabalhos expostos

Entre os principais artistas estava o inglês Mr. Rob Ryan, que inclusive ao longo do evento transferiu seu estúdio do East London para feira. Era possível ver Rob e a sua equipe trabalhando nas delicadas peças que são originadas a partir de recortes de papel.

meninas trabalhando e o resultado. Rob Ryan

Além disso, outros coletivos muitos bacanas como PeepShow e Nowbrow (especializado em impressão de livros de ilustrações) estavam presente oferecendo workshops. O espaço também contou com outras atividades, todas buscando integrar o trabalho dos artistas com o público.

Peepshow

Mais alguns artistas

Eu, é claro, pirei, se pudesse adquiria tudo. Achei as peças ótimas e mesmo não dando pra levar tudo, ao menos foi bacana pra conhecer os artistas por trás dos trabalhos (alguns deles eu já tinha visto em algumas pequenas galerias) e poder depois garimpar as obras. A feira foi paga (o valor do ingresso era justo) e o passeio foi ótimo. Iniciativa que eu acredito pode ser mais que seguida.

Nota: Aconteceu um despreparo e as fotos não ficaram uma beleza, mas pelo menos  dá pra ter uma ideia do que tinha por lá.

Essas são fotos de um livro chamado I Lego NY em que Christoph Niemann genialmente homenageia a cidade através de reproduções de pontos turísticos e ícones de NY usando peças de Lego. A simples ideia surgiu depois de Niemann brincar de Lego com seu filho. Eu ainda não tive a oportunidade de conhecer a Grande Maçã, então talvez perca um pouco das piadas, mas definitivamente o cabelo do Donald Trump deve ser a melhor de todas. Quer ver mais algumas fotos clique aqui.

Odiei na primeira mordida. Cobri minha fatia de pão generosamente com aquilo que jurei  fosse uma espécie de Nutella mais escura, e depois da primeira (e única) mordida minha boca instantaneamente se encheu de um sabor extremamente salgado, amargo e nada agradável. Passei o resto do dia sem comer mais nada e desde então só ao ver a embalagem do Marmite já  sinto náuseas.

Marmite na sua forma original

Marmite, assim como o chá com leite, é uma espécie de instituição da cultura (e culinária) britânica. Consiste em extrato de levedura de cerveja (que dá aquele sabor “amargo-de-cerveja-choca”) e níveis cavalares de sal, a cor é marrom escura e a consistência é meio que de geléia. Se passa no pão, crackers, bagel, ou qualquer coisa do gênero e aparentemente todo o britânico, pelo menos uma vez na vida, já comeu Marmite. Mas ao contrário da Nutella, que é unanimidade na Itália (e fora dela), Marmite divide torcidas. Tem quem adora e  tem quem odeia, exatamente nesses termos. Ninguém mais ou menos gosta (ou não) de Marmite (da mesma forma que não existe mulher ‘meio grávida’), e isso nada tem a ver com crescer ou não comendo Marmite (no caso de alguém pensar que isso pode ser coisa de estrangeiro que não aprecia o sabor peculiar de produtos locais).

Publicidade dos biscoitos Marmite. Love it or Hate it

A divisão de opinião é tanta que há mais de 20 anos não só o slogan mas todas as campanhas do Marmite (marca comprada pela Unilever e publicitariamente escoltada pela DDB UK) são embasados no conceito “Marmite Love it or Hate it”, representando, sem nenhum pudor, o sentimento das pessoas com relação ao bendito. Estudo de caso no meio publicitário, parece que o fato de incluir a  imagem negativa do produto na estratégia de marketing só veio a ajudar no crescimento do conhecimento da marca e até a gerar uma espécie de identificação de quem não suporta Marmite (sim, eu).

Loja da Marmite

Hoje, Marmite já virou império e além do ‘food spread’ tem salgadinho, barra de cereal e uma vasta gama de acessórios com a marca do produto estampada. Inclusive, ano passado, a Unilever investiu na temporária Marmite Pop Up Shop, no centro de Londres, para vender todas as quinquilharias possíveis relacionadas à marca e propiciar, para aqueles que amam Marmite, uma única ‘Marmite experience’ em uma cafeteria com decoração dos anos 50.

E agora em tempo de eleições (aqui, dia 6 de maio o povo vai para as urnas), dá pra votar no Love Party ou Hate Party, todos com programas governamentais relacionados ao sentimento que Marmite causa nos possíveis eleitores. Os vídeos são ótimos, e vale a pena dar uma olhada, ao menos em um deles.

Com genial estratégia de marketing ou não, Marmite é de se respeitar, mesmo odiando.

*Expressão britânica utilizada cotidianamente e que faz jus ao sentimento Marmite.

Foto de Jason Powell

Faz um tempinho que vi esse projeto Looking into the past em algum lugar e achei ótimo. A prospota é simples e bacana e foi concebida pelo fotógrafo americano Jason Powell. Tira-se uma foto de um local mesclando com imagens antigas do mesmo. Vale foto pessoal, cartão postal, foto de arquivo. É um grupo no Flickr e quem quiser pode unir-se a ele, basta fazer uma dessas e mandar (ou postar, não sei bem como funciona o sistema por lá). Eles também fazem pequenos fóruns com dicas de onde achar imagens antigas e como expandir o próprio projeto. Até onde eu fui, não vi nenhum pedacinho de Brasil, pra quem se animar dá pra ser pioneiro.

Foto de Uwgb Admissions

Foto de Fuxe 73

Foto de Jason Powell

Meu primeiro contato com o universo digital corresponde à um relógio sem ponteiros e nem complexas representações de números (como aquele 1 que também poderia valer 5 – minutos). Ele apenas indicava as horas sem rodeios com simples e claros dígitos. Fácil, prático e compreensível a qualquer cidadão, inclusive àqueles com 4 anos de idade. Esse relógio de pulso, estampado com a cara da Hello Kitty, foi o que me fez cair de amores pelo digital, mesmo que na época eu nem suspeitasse o que era analógico.

 

E honestamente, nem me dei ao trabalho de me preocupar com esse tal de analógico. Porque ouvir um CD era muito melhor que ficar trocando o disco de lado, um Tamagochi muito mais prático que um cachorro, mandar um email muito mais imediato que ficar esperando a carta chegar e as fotos instantâneas nem precisa especificar. A aparente única esperança para o analógico era mesmo sobreviver de romantismo e amor daqueles que resistem, ou da incapacidade daqueles que não sabiam gerenciar o digital.

Lomography Fisheye hit analógico

Mas eis que revolução feita e em pleno delírio virtual mundial me vejo um dia desses procurando por filmes fotográficos. A razão? Adquiri uma Lomography, câmera 100% analógica, contrariando, de certa forma, todo o universo digital ao meu redor. Tamanha foi minha surpresa ao descobrir que encontrar filmes fotográficos nem era tão difícil assim tinha, inclusive, opção de marca, quantidade de poses e asa e que a revelação era menos complexa ainda, com a possibilidade de já vir tudo digitalizado. A sensação de esperar o filme ser revelado, ter a surpresa de ver como ficaram as fotos e inclusive ver a cara dos amigos ao ver a câmera (‘o que é isso, é de brinquedo?’) foi tão boa que me convenceu que flertar novamente com o analógico tem sua magia.

O álbum Contra foi lançado também em LP

A ironia é que, apesar de todas as previsões tecnológicas terem extinguido qualquer espécie de analógico no triunfo digital, aparentemente não sou só eu que ando flertando com ele.  Pouco a pouco, consumir analógico não significa vintage e não é  mais preciso se embrenhar em mercado de pulgas ou em um brechó qualquer. Muitas bandas ‘atuais’ (a maioria indie, ou que já foi indie) ao lançarem um álbum oferecem o mesmo na versão LP. Sem falar na própria Lomography e sua vasta gama de câmeras fotográficas, todas analógicas. O modelo pode ser vintage, mas a produção é contemporânea, o produto é novo e a tecnologia… analógica. Nessa onda já tem até grupo saudosista requisitando o revival da VHS (que acho de duvidosa qualidade, mas). Minha pessoal esperança é que a Polaroid volte…

 

Oscilando entre digital e analógico, é possível viver em um mundo em que uma coisa não exclua a outra. Como prova tá aí, o relógio de ponteiros, que mesmo com toda a revolução nunca saiu de moda (e de uso).
%d blogueiros gostam disto: